O ano está acabando. O pobre coitado é denunciado não somente pelas folhas de calendário ou páginas finais de agenda, mas também pelo calor escaldante, pelas chuvas que nada refrescam, pela 25 de março abarrotada, pelas luzinhas made in china na fachada. Por mais que tente se esconder, este ano vem perdendo sua vez, ficando velho e grisalho, levando com ele seus acontecimentos triviais, outros nem tanto e tomando aos poucos seu lugar no passado. Como muitas coisas em nossa sociedade contemporânea, rejeitamos o velho, para dar lugar ao novo.
Não sou muito do tipo de pessoa que faz resoluções de ano novo, mas é bom ter a sensação que, de alguma forma, podemos começar de novo. Daí a gente pula sete ondas, faz oferendas, come coisas que não comeria o resto do ano e jura que ano que vem tudo vai ser diferente. E vai ser. Ou não. Nunca se sabe.
Esse ano, esse que se vai junto com a validade dos panetones nas prateleiras, se vai com muita coisa de mim. Não foi um ano qualquer. Como qualquer fim de ciclo e começo de outro, foi recheado de incertezas e ansiedades que, como qualquer ano que se preze, vai deixar vestígios no que vem em seguida. Dentro de sua lógica distorcida de eventos, foi um bom ano. E deixará saudades.
Não digo isso apenas porque a partir do ano que vem terei que pagar a tarifa inteira do bilhete único, a taxa da minha conta bancária vai subir, não posso mais ser estagiária e a meia entrada para shows e cinema terá que ser lograda através de métodos não muito confiáveis. Não, não mesmo. Isso só significa que o ano que vem, esse que não vê a hora de chegar, me obrigará a ser adulta, como se em um minuto isso fosse possível. Não me entenda mal, querido ano que se aproxima, não temo o mundo adulto, apesar de torcer para que haja uma taxa bancária de primeiro emprego.
Talvez toda essa ansiedade se ancore no fato de que a vida toda, apesar da consciência de minha ainda pouca vivência, fazemos planos. Viagens, morar fora, aprender latim, o que seja. Eu planejei e, de uma certa forma, ao longo dos anos que hoje moram no passado, coloquei minhas expectativas nos anos que seguissem esse. Esse, que você nem viu passar. O problema não é pagar as taxas bancárias, passes de metrô ou entradas de cinema, os anos passam e a maior parte de nós consegue. O problema é não ter a coragem ou condições de fazer tudo aquilo que planejei. E depois, quando os anos passarem, enquanto me surpreendo com a quantidade de panetones empilhados em setembro anunciando uma nova virada, tentar justificar o porque não fiz nada. Assim, o ano que se aproxima, esse que receberemos com fogos de artifício, nada mais é do que um tapa na cara alertando-me que chegou a hora.
Enquanto a decoração das lojas, os papais noeis de shopping, a neve falsa saindo dos bancos na Paulista e as chamadas para especiais natalinos e show do Roberto Carlos, insistem em recordar a iminente chegada desse novo ano, eu me apego com afinco as reminiscências deste ano que passou voando, deixando para aquele último minuto a epifania do que fazer a seguir.