carta à tristeza

Querida Tristeza,

Venho por meio desta carta dizer-lhe que estamos terminadas. Eu sei, é difícil. Mas é chegada a hora de tomarmos caminhos diferentes. A convivência de todos esses anos nos deixou muito próximas, é quase impossível perceber uma sem a outra, esse contorno indefinido entre nós duas, então é natural que essa despedida seja dolorosa, a separação, litigiosa. Ainda assim, perdoe-me, mas sinto que é o certo a se fazer.

Sei que eu não sou e nunca fui tua única companhia. Sei que não demorarás a encontrar uma outra alma a acompanhar. Mas eu, eu preciso me desprender das suas amarras, me libertar da inspiração que você me proporciona e aprender a viver sem você.

Sim, amiga tristeza, já não posso mais chamar-te assim. Te Tornaste aquelas companhias que, de tanto tempo presente, já nem nos lembramos o que nos uniu no começo. Não posso dizer que não sentirei tua falta, talvez por um tempo sinta um vazio, uma estranheza, talvez até arrisque felicidade.

Viraremos aquelas velhas conhecidas, sei que nos esbarraremos vez ou outra, ocasionalmente, ao longo da vida. Sentaremos para tomar um café adoçado de lágrimas, enquanto dividimos as novidades. Depois, nos despediremos, mas juro que não lhe prometerei nenhum reencontro tão breve como fazem geralmente os distantes conhecidos, mesmo sabendo que não irão cumprir o prometido.

Espero que compreendas e que não insistas em rondar a vizinhança. Tudo que posso te oferecer agora é adeus.

o tempo e o agora

Dizem que o tempo cura tudo. Que leva as dores, os desamores. Dizem que passa. Passa e leva tudo com ele.

O Tempo, essa percepção subjetiva, marcada por anos, meses, semanas, dias e horas, que apesar da exatidão dos números insiste em acontecer em velocidades diferentes dependendo da situação, condições de temperatura e pressão.

O Tempo voa, sussurram ao meu ouvido. Sim, voa. Bem naqueles momentos em que tudo que queremos é que ele pare, congele para sempre. E congerlarse é uma tarefa que cumpre tão bem quando o que mais precisamos é que ele voe. Voe, passe como um furacão, levando todo esse aperto no peito.

Acredito mais no Agora. Sem procedimento de medidas, sem meias palavras, sem futuro. Agora. Porque a dor que eu sinto agora, essa que me prometem que o tempo um dia levará, é o que tenho. O tempo será para sempre uma promessa. Ao percebê-lo, já passou.

E o que o tão querido tempo traz? Traz os cabelos brancos que tentamos disfarcar com tinturas, traz as rugas que tentamos acabar com o botox, traz saudades. Sim, ele também traz experiência, sabedoria, nós estamos cansados de ouvir. Mas será que não chegam tarde demais? E o que fazer agora, ainda sem elas? Dê tempo ao tempo, ouço.

Talvez o princípio de conclusão dessa linha de pensamento confusa e tortuosa que provavelmente não será concluída jamais, seja que eu sei que o tempo e suas velocidades não passam de uma percepção minha sobre ele, que é distinta da percepção que outras pessoas tem sobre o mesmo período de tempo e que na verdade milhares de fatores influem na sua passagem, mas ainda assim é o Agora que me assusta. É com toda a profusão de sentimentos que eu sinto agora que não consigo lidar.

A promessa do tempo é apaziguadora, mas o que eu faço agora?

Uhul

Das muitas profissões existentes, algumas são consideradas mais estressantes, causadores de males a saúde e ao espírito e, consequentemente, as menos desejadas na hora de decidir o que fazer da vida. Entre elas figuram professores, motoristas de táxi, operadores de telemarketing, motoristas de ônibus, entre outras.

É de entendimento comum e unânime que dirigir o dia inteiro, e muitas vezes a noite inteira, por grandes metrópoles como São Paulo não é nada fácil, nem saudável. E todas as freiadas bruscas, buzinadas inúteis, dedos do meio flutuantes e xingamentos abafados pelo vidro estão aí para provar essa teoria urbana.  Então, ao apresentar-se uma cena diferente, não há como não notá-la.

Em um ônibus comum de São Paulo, nem muito cheio nem muito vazio, mas sem lugares para sentar, um motorista fazia seu trabalho: dirigia. Da onde eu estava, segurando na haste amarela para não cair, apenas o ouvia. Me chamou a atenção quando ouvi o primeiro “Uhul” seguido de sua risada contagiante. Dirigia-se a uma pessoa que corria tentando alcançar o ônibus. As portas já tinham sido abertas e fechadas duas vezes, mas ele abriu uma terceira vez. E ao ver a mulher pisar dentro do ônibus soltou: Uhul. Ela sorriu.

Como um apresentador em um desses programas de auditório, o show continuava. Ao passar pelos pontos gritava: “Parada Avenida Brasil, descida pela porta direita” ou “‘Parada Shopping Eldorado, acesso a CPTM”. Em um momento o cobrador avisou: uma cadeirante ia descer no próximo ponto. O motorista não teve dúvidas, gritou: “Por isso hoje tenho aqui dois grandes assistentes”, dirigindo-se a dois passageiros que transitavam de pé ao lado dele. Rapidamente os assistentes fizeram seu trabalho e ajudaram a mulher a descer do ônibus. Uhul Corinthians, ele gritava. Ela sorriu.

Uma senhora, ao descer do ônibus, gritou de volta: Deus te Abençoe, motorista. Ele sorriu.

Antes de passar pela catraca e descer no meu ponto, me virei para tentar vê-lo. O espelho retrovisor pregado no vidro o revelou. Era grande, careca, pele cor chocolate e olhos e dentes brilhantes. Sorri.

Saudade

Acho saudade uma palavra muito nossa. Meu sentimento de propriedade em relação a essa palavra é tão intenso que em momentos chego a acreditar que apenas os nascidos ou adotados por essa nossa terra possam senti-la. Parte constituinte do conjunto de palavras e sentimentos inexplicáveis, só entende quem a vivencia, sem explicativos de wikipedia ou descrição de dicionários, o que só a torna ainda mais charmosa. Pena que palavra e sentimento ambos tão fortes e tão bonitos se façam presentes apenas quando há falta.

De algo, de alguém, de outrora.

Pesares cumulativos esses, que conforme os anos passam e a vida acontece, coisas se somam e se vão, aumentando progressivamente essa sensação que tão apropriadamente chamamos de saudade. Existem situações nas quais pode se tentar revertê-la e existem outras que não há remédio que cure, saudades de tempos passados que existiram graças a uma combinação de elementos que mesmo reaglutinados não surtiriam o mesmo efeito. E, no fim, tudo que te sobra é a saudade.

Então, vivemos coisas incríveis e outras nem tanto, conhecemos pessoas incríveis e outras nem tanto e vamos acumulando ao longo da vida saudades e mais saudades até virarmos aqueles senhores de idade que por vezes nos incomodam de só falar e reviver o passado.

Tão forte é esse sentimento que chego a acreditar na possibilidade e literalidade da expressão imortalizada na saudosa voz de Tim Maia:

Vou morrer de saudade.

Trânsito

Era magro e relativamente alto, não aparentava os 17 anos que carregava nas costas. Trabalhava com entregas, seu cunhado tinha uma carreta, cabine dupla na frente e caçamba revestida por toras vazadas de madeira na parte de trás. Transportavam de tudo, móveis principalmente. Viam casais se juntarem, insistindo apertar dois mundos em um apartamento só e se separarem levando de volta apenas o sofá, a geladeira e um eventual objeto jogado pela janela em um surto de raiva.

Já conhecia a cidade de cor, os horários de trânsito, os atalhos, os caminhos alternativos, melhor que qualquer taxista, gostava de gabar-se. Tinha os braços fortes de tanto carregar peso e um sorriso que denunciava sua pouca idade. No fim do dia, após a última entrega e enfrentando o pior dos trânsitos paulistas, costumava deixar seu cunhado sozinho na direção ao som das melhores da rádio e com um impulso prostava-se na caçamba. Ali, onde as coisas mais valiosas dos clientes costumavam viajar pela cidade, deitava, colocava um braço atrás da cabeça como apoio, o outro recostado em cima da barriga e olhava para cima.

O cunhado, certo de que ele dormia, não dizia nada, continuava a cantarolar suas canções favoritas. A verdade é que gostava de ver São Paulo assim, debaixo para cima. As nuvens passavam como borrões quando o trânsito permitia correr e quando congestionados podia vê-las movimentando-se pelo ar, lentamente formando e deformando. Os cabos de força faziam caminhos complexos, interligavam-se entre si e com os galhos das árvores mais altas, desenhando no céu. Sons de buzina e poluição não pareciam incomodar-lhe, faziam parte do show aberto, suspenso no ar, que é São Paulo.

O outro lado da porta

Eu escolho a felicidade. Quase como um mantra, repetia a frase em voz alta ao olhar-se no espelho. Respirava fundo. Tentava novamente. Eu escolho a felicidade. Como nuvens carregadas, seus olhos enchiam-se de lágrimas. Mais uma vez. Eu escolho a felicidade. Em alguns momentos, dava certo e as gotas secavam antes da tempestade. Outros não, e como chuva em tarde de verão, caiam alagando a pia onde a torneira já respingara. Eu escolho a felicidade. Frase brega, pensava, e ria de si mesma, com vergonha de algo que, apesar dos passos do outro lado do banheiro, ninguém ouviu.

Tratava de ser otimista, desabrochar a Pollyana que havia dentro de si. Não há nada de ruim que não possa piorar, pensava ela, no auge de seu pensamento positivo. Portanto, não reclame. Eu escolho a felicidade. Inspira. Respira. Acalmava-se. Hora de virar a tranca e enfrentar o mundo lá fora. O outro lado da porta.

Com a mão na maçaneta, se vira e olha mais uma vez no espelho. Apagando vestígios. Maquiagem, ok. Eu escolho a felicidade. Respira e volta a mirar para a frente. Encosta a cabeça na porta e fecha os olhos escutando os ruídos abafados. Eu escolho a felicidade. 1,2,3.

De impulso, gira a chave e abre a porta. Os ruídos se tornam claros e os passos ganham rostos. Ninguém parece notar seu esforço para existir. De volta ao mundo.

O Passageiro

Andar de ônibus pode ser algo um tanto quanto elucidador. No meio de corredores, assentos reservados, idosos, gestantes, homens, mulheres e crianças ainda capazes de passar por debaixo da catraca, passamos muitas horas do nosso dia segurando nas hastes de ferro amarelas esperando não cair e aguardando ansiosamente por algum assento desocupado.

Nas raras ocasiões em que estes se encontram meio cheios ou meio vazios e avisto um assento vazio do outro lado da catraca uma pequena sensação calorosa toma conta de mim ao finalmente conseguir sentar-me e ajeitar-me em um lugar desocupado. Suspiro.

A felicidade nas pequenas coisas.

Alguns assentos são individuais, outros duplos. Prefiro sentar onde esteja vazio, quando possível. O curioso é que, ao sentar em um espaço duplo totalmente vazio, espero poder viajar todo o caminho sem que ninguém ocupe o assento ao meu lado. Na maior parte das vezes, isto não é possível e viajar acompanhado se torna inevitável. Algumas vezes o ocupante é rápido, descendo rapidamente do ônibus e te permitindo seguir viagem só ou acompanhado por um ser novo. Ele pode ser calado, puxar assunto, espaçoso, usar um perfume forte ou nenhuma das opções anteriores. Ou pode se encaixar no mesmo grupo que eu, o de eternos leitores. Como imãs, meus olhos grudam em qualquer jornal, revista, bíblia, folhetim ou livro de meus companheiros viajantes. Muitos deles não gostam dessa invasão, mas é difícil se conter. Descobrir que títulos esses passageiros lêem é um hobby pessoal.

E existem aquelas ocasiões as quais, mesmo contra sua vontade, uma pessoa se senta ao seu lado e após um eventual “com licença” – “claro” e algumas ajeitadas no corpo para melhorar a acomodação, ele avista um outro assento recém desocupado, totalmente livre e migra, te deixando só naquele espaço duplo que agora parece grande demais.

Não consigo parar de pensar na semelhança com vida em geral. Eu não queria que ele sentasse lá, mas porque mudar de lugar? Será que meu perfume é forte demais, minhas pernas espaçosas, meu livro desinteressante?

Provavelmente nenhuma das opções. Provavelmente são escolhas baseadas puramente no conforto espacial que assentos duplos vazios podem proporcionar, nada relacionado ao companheiro de viagem da vez. Mas não é assim que, muitas vezes, o mundo gira? Alguém senta ao seu lado e juntos decidem acompanhar-se por essa viagem, mas quando um dos passageiros resolve mudar de lugar, você é deixado com um espaço vazio o qual não sabe muito bem como preencher.

Pelo menos até perceber o alívio que é poder esticar as pernas.

O Palco

Na saída do metrô Consolação, ali bem na esquina da Av. Paulista e Augusta, há uma estrutura de metal quadrada de aproximadamente meio metro de altura e sem utilidade aparente para os milhares passantes. Mas, em dias escolhidos criteriosamente sem critério, um homem a usa para propósitos distintos do previsto por-vai-saber-quem a colocou ali. De barba e cabelo grisalhos e sem corte que o fazem aparentar mais idade do que provavelmente tem, ele sobe com pouca dificuldade na estrutura e, de pé, tira do bolso um radinho e um fone redondo que posiciona recobrindo suas orelhas. Sua calça jeans é sempre acompanhada de uma camiseta verde que cobre uma barriga avantajada pelo tempo. Ali, meio metro acima dos transeuntes, em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, ele dança. Simplesmente, dança. Assim, sem coreografias e sem vergonha. Sem restrições de ritmos musicais ou passos da moda. Pode até ser que daquele radinho nenhum som real ecoe através dos fones até seus ouvidos, mas isso não importa. Em seu pequeno palco improvisado e sem causar muitas reações do público passante, ele passa suas horas. Dançando.

Toda vez que desço na estação Consolação, subo as escadas rolantes e vejo seu corpo se mexendo ao som de buzinas, escapamentos e conversas jogadas ao vento, me lembro de como tudo pode ser assim, leve. Surpreendentemente leve.

E caminho sorrindo.

Perdas e Ganhos

É difícil lidar com a perda. Além de reafirmar o óbvio, quero dizer que as perdas vem de diferentes maneiras. Existem aquelas irreparáveis, das quais a barreira intransponível entre a vida e a morte ainda não conseguimos burlar, e existem aquelas ocasionadas apenas pelo vai e vem natural dos corpos, universos paralelos, divórcios assinados, cartas de despedida ou simplesmente do silêncio. Essas perdas, além de se materializarem de diferentes maneiras, se apresentam nos mais variados tipos de relacionamentos.

Injusto, esse ir e vir constante, já que independente do grau e condições de temperatura e pressão, cada ser vem e agrega algo em você. Pode ser algo bom ou pode não ser, a questão é que as coisas mudam. E assim, às vezes sem mais nem menos, às vezes bem mais do que menos, nos perdemos e então elas se vão, impedindo-te para sempre de voltar a ser o que era antes.

Pode ser assim, dramático, ou pode passar desapercebido, mas não significa que não aconteça. Entre outras coisas, talvez sejam esses ganhos e essas perdas, esse trânsito humano, que nos faz chegarmos a velhice completamente diferentes do que fomos na juventude.

E, se tivesse que ressaltar um objetivo dessa linha de raciocínio, exposta aqui a julgamentos de valor quanto a breguice  e insensatez, seria dizer para você que, apesar de toda abundância de informação que agora flutua na internet, ainda está lendo esse texto, você que possivelmente já perdi por aí, ou talvez de alguma forma faça parte da minha vida, devo dizer que, independente da contabilidade de perdas e ganhos, você é parte constituinte do que sou hoje e do que serei amanhã.

E realmente espero que, mesmo nos perdendo, possamos nos reencontrar por aí.

fragmentos extraterrestres

Os devorava. Leitor ávido de tudo que lhe caía em mãos, não saía de casa sem o exemplar da vez debaixo do braço ou dentro da mochila. Companheiros fiéis, impediam a chegada do tédio em momentos rotineiros, como em filas de banco, consultórios médicos e trânsitos congestionados. Com o passar do tempo, uma mania se desenvolveu. Não conseguia largá-los. O clímax se aproximava, o casal finalmente se beijava, o assassino era revelado, o mistério resolvido. Como poderia largar tais páginas em momentos como esse? Passou a preferir ônibus à comodidade do carro, assim não perderia o tempo da viagem e chegava a descer alguns pontos depois se as páginas cruciais se aproximavam. Caminhava lendo, hábito que ocasionava alguns acidentes com paredes, postes, pessoas e afins; e até inventou um apoiador que o permitia ler durante as refeições de forma que não precisasse ocupar uma de suas mãos.

Era tachado de anti-social, um ermitão que preferia uma porção de páginas escritas à relações de carne e osso. Ele não escutava, estava muito envolvido com figuras mitológicas, investigações policiais, anéis poderosos e romances proibidos para notar qualquer comentário dessa estirpe.

E, ao chegar ao fim e virar a última página, inevitavelmente o vazio batia, como se já pudesse sentir saudades de seus amigos personagens. Fechava o livro e erguia a cabeça. De repente seus ouvidos captavam a ruidagem externa e seus olhos a movimentação dos corpos passantes. Era como se recém chegasse na terra, um extraterrestre vindo de lugares muito mais interessantes. De supetão, corria para a livraria de sempre, onde, passando os dedos pelas lombadas, procurava um novo mundo para pertencer.

Conversa de Pescador

CoPouso da Cajaíbastumava acordar cedo. Esfregava os olhos, abria a janela e observava a paisagem ainda escurecida. Ao abrir a porta de casa, e deparar-se com ele, sorria. Seu ofício? Pescador. Seu patrão? O mar.

Enquanto seus companheiros preparavam seus barcos para mais um dia de trabalho, ele parava com os pés na areia, deixando a água tocar-lhe levemente e, em voz alta, perguntava – Tem peixe? Risadas ecoavam e os outros balançavam suas cabeças, enquanto comentavam seus momentos de loucura e os atribuiam a bebedeira da noite anterior – Ê Ressaca! – gritavam. Mas, não importava porque, de alguma forma, para ele, o mar respondia.

Via o mar como um ser vivo, um deus mitológico, uma entidade com vontade própria e livre arbítrio. Havia que perguntar se podia banharse, se as ondas baterem com força nas pedras, respeitar seu mau humor e quando a correnteza te puxa de volta à praia,  é sinal que o mar deseja recolher-se em sua privacidade.

Pedia licença para exercer sua profissão, pegando peixes como um empréstimo a um amigo com dificuldades financeiras, as ondas brincavam de pega-pega com seus filhos da beira da praia e a água refrescava sua mulher após horas na cozinha. Ao final do dia, secando-se ao sol, agradecia por sua companhia. Virara seu amigo, confidente, parceiro de todos os dias.

E quando chovia torrencialmente e sua mulher lhe implorava para que deixasse a pescaria para outro dia, ele lhe respondia – É o jeito do mar lavar a alma, há de se presenciar. E se alguém há de me levar, que seja o mar.

E quando assim foi, e o mar o levou, a chuva lavou sua alma pelos próximos sete dias. Os moradores da vila o observavam em silêncio e ninguém se atreveu a pescar. O mar estava de luto.

fragmentos de um perfume

Aquele travesseiro tinha um cheiro peculiar. Era uma mistura do perfume que borrifava todo dia, do creme de barbear e do suor de um dia longo. A casa só se sentia casa após jogar-se na cama e inalar por alguns segundos aquele cheiro. Nenhuma cama recém feita ou lençol com amaciante podiam superar essa sensação. Mudar de sabão em pó era motivo de demissão, hotéis causavam-lhe insônia. Chegava em casa, jogava as chaves na mesinha de centro, tirava os tênis, um por vez, com o auxílio do outro pé, deixando-os jogados no corredor e com uma mão tirava a camiseta de uma vez pela cabeça, enquanto andava pela casa. Ao chegar no quarto, olhava para a cama e se jogava. Caía em uma imensidão acolchoada, se banhava no mar dos lençóis e se encontrava com ele. O cheiro. E aí, nenhum lugar comparava-se aquele.

Feliz Ano Velho

O ano está acabando. O pobre coitado é denunciado não somente pelas folhas de calendário ou páginas finais de agenda, mas também pelo calor escaldante, pelas chuvas que nada refrescam, pela 25 de março abarrotada, pelas luzinhas made in china na fachada. Por mais que tente se esconder, este ano vem perdendo sua vez, ficando velho e grisalho, levando com ele seus acontecimentos triviais, outros nem tanto e tomando aos poucos seu lugar no passado. Como muitas coisas em nossa sociedade contemporânea, rejeitamos o velho, para dar lugar ao novo.

Não sou muito do tipo de pessoa que faz resoluções de ano novo, mas é bom ter a sensação que, de alguma forma, podemos começar de novo. Daí a gente pula sete ondas, faz oferendas, come coisas que não comeria o resto do ano e jura que ano que vem tudo vai ser diferente. E vai ser. Ou não. Nunca se sabe.

Esse ano, esse que se vai junto com a validade dos panetones nas prateleiras, se vai com muita coisa de mim. Não foi um ano qualquer. Como qualquer fim de ciclo e começo de outro, foi recheado de incertezas e ansiedades que, como qualquer ano que se preze, vai deixar vestígios no que vem em seguida. Dentro de sua lógica distorcida de eventos, foi um bom ano. E deixará saudades.
Não digo isso apenas porque a partir do ano que vem terei que pagar a tarifa inteira do bilhete único, a taxa da minha conta bancária vai subir, não posso mais ser estagiária e a meia entrada para shows e cinema terá que ser lograda através de métodos não muito confiáveis. Não, não mesmo. Isso só significa que o ano que vem, esse que não vê a hora de chegar, me obrigará a ser adulta, como se em um minuto isso fosse possível. Não me entenda mal, querido ano que se aproxima, não temo o mundo adulto, apesar de torcer para que haja uma taxa bancária de primeiro emprego.

Talvez toda essa ansiedade se ancore no fato de que a vida toda, apesar da consciência de minha ainda pouca vivência, fazemos planos. Viagens, morar fora, aprender latim, o que seja. Eu planejei e, de uma certa forma, ao longo dos anos que hoje moram no passado, coloquei minhas expectativas nos anos que seguissem esse. Esse, que você nem viu passar. O problema não é pagar as taxas bancárias, passes de metrô ou entradas de cinema, os anos passam e a maior parte de nós consegue. O problema é não ter a coragem ou condições de fazer tudo aquilo que planejei. E depois, quando os anos passarem, enquanto me surpreendo com a quantidade de panetones empilhados em setembro anunciando uma nova virada, tentar justificar o porque não fiz nada. Assim, o ano que se aproxima, esse que receberemos com fogos de artifício, nada mais é do que um tapa na cara alertando-me que chegou a hora.

Enquanto a decoração das lojas, os papais noeis de shopping, a neve falsa saindo dos bancos na Paulista e as chamadas para especiais natalinos e show do Roberto Carlos, insistem em recordar a iminente chegada desse novo ano, eu me apego com afinco as reminiscências deste ano que passou voando, deixando para aquele último minuto a epifania do que fazer a seguir.

Manifesto Feminino

Todo mês é a mesma coisa. Sorrateiramente ela chega e aos poucos se impõe com firmeza. Todo mês eu tento evitá-la e todo mês, apesar de meus esforços, ela ataca. Inimiga número 1 dos homens, é também desculpa esfarrapada de quando estes não querem reconhecer seus próprios defeitos. Ah – eles dizem – entendi, tá na TPM, né? Se sim, estamos na TPM, um sentimento intenso se multiplica e a vontade é de danar profundamente a saúde de nosso interlocutor. Se não estamos na TPM, então esse sentimento se mistura a dor da injustiça. Não há maneira de fazer esta declaração e sair ileso. É verdade, são dias intensos. O inchaço preeenche nosso corpo, dificultando a escolha de roupas e consequentemente declarando guerra contra o armário. As dores, para algumas mulheres, constante, para outras, um incômodo, fica a espreita. E o mau-humor definitivamente não é algo facilmente evitável. Alguns remédios prometem ajudar, vendem a cura para os sintomas femininos. Para mim, a pílula ajudou com as dores – muito obrigada – mas  normalmente  é o emocional que toma conta e para isso não há o que fazer. O que antes poderia ouvir sem nem pensar em me ofender, vira motivo para ir chorar no banheiro, me abato por uma vontade tremenda de ver filmes hollywoodianos genericamente rotulados de comédias românticas e choro ao cair nas mesmas fórmulas que eu sei serem fabricadas, amaldiçoando o mundo por não criar pessoas assim como os roteiristas criam personagens e nem situações capazes de transformar minha vida em 90 minutos. E sempre acompanhada de chocolates, é claro. E como diz, Ricardo Arjona em uma música sobre o tema, “De vez en mes soy invisible para intentar en lo posible no promover tu mal humor”, sou capaz de grosserias infundadas levadas a uma proporção extrema. Alguns dias se passam, fazendo-me voltar ao estado anterior e eu finalmente consigo enxergar o porque de toda essa sensibilidade aflorada. Ah – digo eu – tava na TPM. É quando eu percebo o quão exagerada fui nas reações, agradeço aos céus por ninguém ter me visto chorar enquanto assistia aqueles filmes, me arrependo das calorias ingeridas e sinto raiva de mim mesma por ter caído no mesmo clichê feminino novamente. Mês que vem vai ser diferente, me proponho. Logo me pergunto quando isso tudo vai acabar e rapidamente me lembro da menopausa e já não sei o que é pior. É, ser mulher é complexo. Isso não quer dizer, homens habitantes do planeta Terra, que vocês não possam estar errados em uma discussão. Estejamos de TPM ou não.

O Homem que Parava o Tempo

Cinesesc

Outro dia, no cinema, enquanto aguardava o início da sessão, sentei em um dos puffs do saguão de entrada do local. A sessão era disputada e algumas pessoas já formavam, em vão, uma pequena fila em frente a entrada da sala. Na televisão a minha frente rolavam créditos de um programa sobre ballet que nenhum dos presentes parecia notar. Quando o tédio estava pronto para tomar conta, olhei para o lado e o avistei. Sentado em um puff ao meu lado esquerdo, levemente de costas para mim, um senhor desenhava. Parecia ter quase atingido a casa dos setenta, seus cabelos eram totalmente brancos e desgrenhados, assim como sua barba não parecia encontrar um aparador há tempos.

O homem carregava uma caderneta e uma caneta preta, seus traços eram leves e suas mãos rápidas. Em poucos segundos figurava na folha de papel o retrato de uma jovem mulher sentada. Ergo meus olhos do papel para os dele. Discretamente ele traça no papel e olha rapidamente para frente. Acompanho seu olhar e a encontro. A moça do desenho, sentada em sua frente, conversava com amigos, aguardando o mesmo espetáculo que nós. Um segundo e pronto, ela se mexeu e já não era mais a do desenho. Sem saber de seu protagonismo na obra de arte, continuava a conversar. Mas ele não parecia se importar, já havia imortalizado no papel aqueles poucos segundos de tempo. Deu uns retoques aqui e ali e estava pronto.

Eu, maravilhada, já nem me preocupava do ridícula que estava, retorcida, para ver o desenho. E o senhor, como se soubesse da minha curiosidade mesmo sem olhar para trás, começou a folhear as páginas de sua caderneta. E ali estavam, imortalizados no papel, milhares de segundos parados no tempo, registrados para sempre. Eram rostos, gestos, alguns coloridos, outros preto e branco, momentos que ele havia roubado só para ele.

De repente, a fila foi ficando cada vez maior e todos se levantavam para conseguir um lugar. Fui abruptamente tirada de meu estupor. Entrei na fila pensando em todos aqueles modelos inconscientes que pousavam apenas ao viver, ao simplesmente estar. A fila andou, o procurei, mas ele já não estava mais lá. Tinha-se ido.

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