Trânsito
Era magro e relativamente alto, não aparentava os 17 anos que carregava nas costas. Trabalhava com entregas, seu cunhado tinha uma carreta, cabine dupla na frente e caçamba revestida por toras vazadas de madeira na parte de trás. Transportavam de tudo, móveis principalmente. Viam casais se juntarem, insistindo apertar dois mundos em um apartamento só e se separarem levando de volta apenas o sofá, a geladeira e um eventual objeto jogado pela janela em um surto de raiva.
Já conhecia a cidade de cor, os horários de trânsito, os atalhos, os caminhos alternativos, melhor que qualquer taxista, gostava de gabar-se. Tinha os braços fortes de tanto carregar peso e um sorriso que denunciava sua pouca idade. No fim do dia, após a última entrega e enfrentando o pior dos trânsitos paulistas, costumava deixar seu cunhado sozinho na direção ao som das melhores da rádio e com um impulso prostava-se na caçamba. Ali, onde as coisas mais valiosas dos clientes costumavam viajar pela cidade, deitava, colocava um braço atrás da cabeça como apoio, o outro recostado em cima da barriga e olhava para cima.
O cunhado, certo de que ele dormia, não dizia nada, continuava a cantarolar suas canções favoritas. A verdade é que gostava de ver São Paulo assim, debaixo para cima. As nuvens passavam como borrões quando o trânsito permitia correr e quando congestionados podia vê-las movimentando-se pelo ar, lentamente formando e deformando. Os cabos de força faziam caminhos complexos, interligavam-se entre si e com os galhos das árvores mais altas, desenhando no céu. Sons de buzina e poluição não pareciam incomodar-lhe, faziam parte do show aberto, suspenso no ar, que é São Paulo.
Ok, assumo que até eu achei bonito agora!
Muito bom !
São Paulo é um show aberto suspenso no ar !
Magnífica definição.