carta à tristeza

Querida Tristeza,

Venho por meio desta carta dizer-lhe que estamos terminadas. Eu sei, é difícil. Mas é chegada a hora de tomarmos caminhos diferentes. A convivência de todos esses anos nos deixou muito próximas, é quase impossível perceber uma sem a outra, esse contorno indefinido entre nós duas, então é natural que essa despedida seja dolorosa, a separação, litigiosa. Ainda assim, perdoe-me, mas sinto que é o certo a se fazer.

Sei que eu não sou e nunca fui tua única companhia. Sei que não demorarás a encontrar uma outra alma a acompanhar. Mas eu, eu preciso me desprender das suas amarras, me libertar da inspiração que você me proporciona e aprender a viver sem você.

Sim, amiga tristeza, já não posso mais chamar-te assim. Te Tornaste aquelas companhias que, de tanto tempo presente, já nem nos lembramos o que nos uniu no começo. Não posso dizer que não sentirei tua falta, talvez por um tempo sinta um vazio, uma estranheza, talvez até arrisque felicidade.

Viraremos aquelas velhas conhecidas, sei que nos esbarraremos vez ou outra, ocasionalmente, ao longo da vida. Sentaremos para tomar um café adoçado de lágrimas, enquanto dividimos as novidades. Depois, nos despediremos, mas juro que não lhe prometerei nenhum reencontro tão breve como fazem geralmente os distantes conhecidos, mesmo sabendo que não irão cumprir o prometido.

Espero que compreendas e que não insistas em rondar a vizinhança. Tudo que posso te oferecer agora é adeus.

o tempo e o agora

Dizem que o tempo cura tudo. Que leva as dores, os desamores. Dizem que passa. Passa e leva tudo com ele.

O Tempo, essa percepção subjetiva, marcada por anos, meses, semanas, dias e horas, que apesar da exatidão dos números insiste em acontecer em velocidades diferentes dependendo da situação, condições de temperatura e pressão.

O Tempo voa, sussurram ao meu ouvido. Sim, voa. Bem naqueles momentos em que tudo que queremos é que ele pare, congele para sempre. E congerlarse é uma tarefa que cumpre tão bem quando o que mais precisamos é que ele voe. Voe, passe como um furacão, levando todo esse aperto no peito.

Acredito mais no Agora. Sem procedimento de medidas, sem meias palavras, sem futuro. Agora. Porque a dor que eu sinto agora, essa que me prometem que o tempo um dia levará, é o que tenho. O tempo será para sempre uma promessa. Ao percebê-lo, já passou.

E o que o tão querido tempo traz? Traz os cabelos brancos que tentamos disfarcar com tinturas, traz as rugas que tentamos acabar com o botox, traz saudades. Sim, ele também traz experiência, sabedoria, nós estamos cansados de ouvir. Mas será que não chegam tarde demais? E o que fazer agora, ainda sem elas? Dê tempo ao tempo, ouço.

Talvez o princípio de conclusão dessa linha de pensamento confusa e tortuosa que provavelmente não será concluída jamais, seja que eu sei que o tempo e suas velocidades não passam de uma percepção minha sobre ele, que é distinta da percepção que outras pessoas tem sobre o mesmo período de tempo e que na verdade milhares de fatores influem na sua passagem, mas ainda assim é o Agora que me assusta. É com toda a profusão de sentimentos que eu sinto agora que não consigo lidar.

A promessa do tempo é apaziguadora, mas o que eu faço agora?

Uhul

Das muitas profissões existentes, algumas são consideradas mais estressantes, causadores de males a saúde e ao espírito e, consequentemente, as menos desejadas na hora de decidir o que fazer da vida. Entre elas figuram professores, motoristas de táxi, operadores de telemarketing, motoristas de ônibus, entre outras.

É de entendimento comum e unânime que dirigir o dia inteiro, e muitas vezes a noite inteira, por grandes metrópoles como São Paulo não é nada fácil, nem saudável. E todas as freiadas bruscas, buzinadas inúteis, dedos do meio flutuantes e xingamentos abafados pelo vidro estão aí para provar essa teoria urbana.  Então, ao apresentar-se uma cena diferente, não há como não notá-la.

Em um ônibus comum de São Paulo, nem muito cheio nem muito vazio, mas sem lugares para sentar, um motorista fazia seu trabalho: dirigia. Da onde eu estava, segurando na haste amarela para não cair, apenas o ouvia. Me chamou a atenção quando ouvi o primeiro “Uhul” seguido de sua risada contagiante. Dirigia-se a uma pessoa que corria tentando alcançar o ônibus. As portas já tinham sido abertas e fechadas duas vezes, mas ele abriu uma terceira vez. E ao ver a mulher pisar dentro do ônibus soltou: Uhul. Ela sorriu.

Como um apresentador em um desses programas de auditório, o show continuava. Ao passar pelos pontos gritava: “Parada Avenida Brasil, descida pela porta direita” ou “‘Parada Shopping Eldorado, acesso a CPTM”. Em um momento o cobrador avisou: uma cadeirante ia descer no próximo ponto. O motorista não teve dúvidas, gritou: “Por isso hoje tenho aqui dois grandes assistentes”, dirigindo-se a dois passageiros que transitavam de pé ao lado dele. Rapidamente os assistentes fizeram seu trabalho e ajudaram a mulher a descer do ônibus. Uhul Corinthians, ele gritava. Ela sorriu.

Uma senhora, ao descer do ônibus, gritou de volta: Deus te Abençoe, motorista. Ele sorriu.

Antes de passar pela catraca e descer no meu ponto, me virei para tentar vê-lo. O espelho retrovisor pregado no vidro o revelou. Era grande, careca, pele cor chocolate e olhos e dentes brilhantes. Sorri.

Saudade

Acho saudade uma palavra muito nossa. Meu sentimento de propriedade em relação a essa palavra é tão intenso que em momentos chego a acreditar que apenas os nascidos ou adotados por essa nossa terra possam senti-la. Parte constituinte do conjunto de palavras e sentimentos inexplicáveis, só entende quem a vivencia, sem explicativos de wikipedia ou descrição de dicionários, o que só a torna ainda mais charmosa. Pena que palavra e sentimento ambos tão fortes e tão bonitos se façam presentes apenas quando há falta.

De algo, de alguém, de outrora.

Pesares cumulativos esses, que conforme os anos passam e a vida acontece, coisas se somam e se vão, aumentando progressivamente essa sensação que tão apropriadamente chamamos de saudade. Existem situações nas quais pode se tentar revertê-la e existem outras que não há remédio que cure, saudades de tempos passados que existiram graças a uma combinação de elementos que mesmo reaglutinados não surtiriam o mesmo efeito. E, no fim, tudo que te sobra é a saudade.

Então, vivemos coisas incríveis e outras nem tanto, conhecemos pessoas incríveis e outras nem tanto e vamos acumulando ao longo da vida saudades e mais saudades até virarmos aqueles senhores de idade que por vezes nos incomodam de só falar e reviver o passado.

Tão forte é esse sentimento que chego a acreditar na possibilidade e literalidade da expressão imortalizada na saudosa voz de Tim Maia:

Vou morrer de saudade.

Trânsito

Era magro e relativamente alto, não aparentava os 17 anos que carregava nas costas. Trabalhava com entregas, seu cunhado tinha uma carreta, cabine dupla na frente e caçamba revestida por toras vazadas de madeira na parte de trás. Transportavam de tudo, móveis principalmente. Viam casais se juntarem, insistindo apertar dois mundos em um apartamento só e se separarem levando de volta apenas o sofá, a geladeira e um eventual objeto jogado pela janela em um surto de raiva.

Já conhecia a cidade de cor, os horários de trânsito, os atalhos, os caminhos alternativos, melhor que qualquer taxista, gostava de gabar-se. Tinha os braços fortes de tanto carregar peso e um sorriso que denunciava sua pouca idade. No fim do dia, após a última entrega e enfrentando o pior dos trânsitos paulistas, costumava deixar seu cunhado sozinho na direção ao som das melhores da rádio e com um impulso prostava-se na caçamba. Ali, onde as coisas mais valiosas dos clientes costumavam viajar pela cidade, deitava, colocava um braço atrás da cabeça como apoio, o outro recostado em cima da barriga e olhava para cima.

O cunhado, certo de que ele dormia, não dizia nada, continuava a cantarolar suas canções favoritas. A verdade é que gostava de ver São Paulo assim, debaixo para cima. As nuvens passavam como borrões quando o trânsito permitia correr e quando congestionados podia vê-las movimentando-se pelo ar, lentamente formando e deformando. Os cabos de força faziam caminhos complexos, interligavam-se entre si e com os galhos das árvores mais altas, desenhando no céu. Sons de buzina e poluição não pareciam incomodar-lhe, faziam parte do show aberto, suspenso no ar, que é São Paulo.

O outro lado da porta

Eu escolho a felicidade. Quase como um mantra, repetia a frase em voz alta ao olhar-se no espelho. Respirava fundo. Tentava novamente. Eu escolho a felicidade. Como nuvens carregadas, seus olhos enchiam-se de lágrimas. Mais uma vez. Eu escolho a felicidade. Em alguns momentos, dava certo e as gotas secavam antes da tempestade. Outros não, e como chuva em tarde de verão, caiam alagando a pia onde a torneira já respingara. Eu escolho a felicidade. Frase brega, pensava, e ria de si mesma, com vergonha de algo que, apesar dos passos do outro lado do banheiro, ninguém ouviu.

Tratava de ser otimista, desabrochar a Pollyana que havia dentro de si. Não há nada de ruim que não possa piorar, pensava ela, no auge de seu pensamento positivo. Portanto, não reclame. Eu escolho a felicidade. Inspira. Respira. Acalmava-se. Hora de virar a tranca e enfrentar o mundo lá fora. O outro lado da porta.

Com a mão na maçaneta, se vira e olha mais uma vez no espelho. Apagando vestígios. Maquiagem, ok. Eu escolho a felicidade. Respira e volta a mirar para a frente. Encosta a cabeça na porta e fecha os olhos escutando os ruídos abafados. Eu escolho a felicidade. 1,2,3.

De impulso, gira a chave e abre a porta. Os ruídos se tornam claros e os passos ganham rostos. Ninguém parece notar seu esforço para existir. De volta ao mundo.

O Passageiro

Andar de ônibus pode ser algo um tanto quanto elucidador. No meio de corredores, assentos reservados, idosos, gestantes, homens, mulheres e crianças ainda capazes de passar por debaixo da catraca, passamos muitas horas do nosso dia segurando nas hastes de ferro amarelas esperando não cair e aguardando ansiosamente por algum assento desocupado.

Nas raras ocasiões em que estes se encontram meio cheios ou meio vazios e avisto um assento vazio do outro lado da catraca uma pequena sensação calorosa toma conta de mim ao finalmente conseguir sentar-me e ajeitar-me em um lugar desocupado. Suspiro.

A felicidade nas pequenas coisas.

Alguns assentos são individuais, outros duplos. Prefiro sentar onde esteja vazio, quando possível. O curioso é que, ao sentar em um espaço duplo totalmente vazio, espero poder viajar todo o caminho sem que ninguém ocupe o assento ao meu lado. Na maior parte das vezes, isto não é possível e viajar acompanhado se torna inevitável. Algumas vezes o ocupante é rápido, descendo rapidamente do ônibus e te permitindo seguir viagem só ou acompanhado por um ser novo. Ele pode ser calado, puxar assunto, espaçoso, usar um perfume forte ou nenhuma das opções anteriores. Ou pode se encaixar no mesmo grupo que eu, o de eternos leitores. Como imãs, meus olhos grudam em qualquer jornal, revista, bíblia, folhetim ou livro de meus companheiros viajantes. Muitos deles não gostam dessa invasão, mas é difícil se conter. Descobrir que títulos esses passageiros lêem é um hobby pessoal.

E existem aquelas ocasiões as quais, mesmo contra sua vontade, uma pessoa se senta ao seu lado e após um eventual “com licença” – “claro” e algumas ajeitadas no corpo para melhorar a acomodação, ele avista um outro assento recém desocupado, totalmente livre e migra, te deixando só naquele espaço duplo que agora parece grande demais.

Não consigo parar de pensar na semelhança com vida em geral. Eu não queria que ele sentasse lá, mas porque mudar de lugar? Será que meu perfume é forte demais, minhas pernas espaçosas, meu livro desinteressante?

Provavelmente nenhuma das opções. Provavelmente são escolhas baseadas puramente no conforto espacial que assentos duplos vazios podem proporcionar, nada relacionado ao companheiro de viagem da vez. Mas não é assim que, muitas vezes, o mundo gira? Alguém senta ao seu lado e juntos decidem acompanhar-se por essa viagem, mas quando um dos passageiros resolve mudar de lugar, você é deixado com um espaço vazio o qual não sabe muito bem como preencher.

Pelo menos até perceber o alívio que é poder esticar as pernas.

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