Arquivo para outubro \22\UTC 2007

Minha Novela.

Disseram que a dor é passageira. Disseram que parasse de chorar. Cansaram-se das minhas penas, das minhas angústias, dos meus calcários. Dizem que cheguei ao meu limite. Mandaram afastar-me. Como uma criança que se recusa a ler o livro obrigado pela professora, não obedeci. Insistem. Como de uma obra clássica, repetem em uníssono a crítica descrevendo imensidão do meu valor. Abrem aspas para as características que mais prezam em mim. Não entendem a desvalorização que dou a minha própria obra. E eu, como um leitor desinteressado passando os olhos desatentos sobre as páginas, não absorvo as informações referidas, me apago, me rebaixo, me humilho. Me mantenho perto, me mantenho atenta. Mantenho os laços que sei que me fazem mal enquanto insisto que se inexistentes seria pior.  E, ao longo dos dias, como um romance fantástico de Julio Verne, minha imaginação conjura ininterruptamente hipóteses sobre você. Dizem que estou louca, paranóica. Demandam que pare de dar corda a ilusões infundadas que não fazem nada além de me machucar. Mas como um estudante que comprova na prática, as teorias que aprendeu nos livros encontro congruências na minha imaginação e na sua vida. Quando percebo o nível da minha invasão, me contenho, torno proibidas as leituras da minha mente, e como uma edição mal traduzida, paro de tentar ler a sua. Aos poucos vou deixando de acreditar em contos de ficção, em romances novelescos, em aventuras extraordinárias. Canso-me de ler e escrever sobre a dor. Começo a voltar à página inicial, buscando na contra-capa as informações que registram quem um dia fui. E como uma leitora voraz dividida entre a curiosidade das páginas finais e o pesar de deixar o livro ao qual se afeiçoou, me vejo chegando ao fim desta novela com as orelhas das páginas marcadas pela dor.

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O Doce Meio-Amargo.

Agora, depois de tantos suplicantes dias nos quais tudo que queria fazer era ir embora, agora que cheguei ao objetivo almejado em longas tardes infelizes, agora que devo olhar com olhos felizes tudo pela última vez, me vejo admirando este lugar com o peito apertado. Tudo tem gosto meio-amargo. E agora, como um tablete de um chocolate riquíssimo que se mantém na boca até o último vestígio ser saboreado por completo, me despeço de atividades previamente odiadas por sua extrema banalidade. Colo envelopes, carimbo papéis, faço ligações como se lhes desse e me desse esse último presente. Como se com esmero pudessem tirar do ato simples como colar um borderô no espelho o prazer de comer o último bombom trufado da caixa.E, com uma dureza repentina, com um arrependimento de uma mulher em dieta que não se conteve aos encantos do chocolate, me pergunto se tomei a decisão correta. Um medo me invade e passo a conjurar toda a lista de prós que me incitaram a essa decisão. Ainda assim, meus olhos se enchem de lágrimas e minha cabeça de perguntas. Seria essa sensação apenas medo? Medo do que? De errar?E como uma criança em frente a uma doceria me pego analisando todas as opções industrializadas postas a minha frente. Ao leite, branco, com amêndoas, passas, meio-amargo. A vida se abre a minha frente e cabe a mim, erguer a mão e escolher seu sabor. O medo cresce e volta a diminuir como se a falsa certeza da fugacidade dessa temporada de incertezas me aliviasse um pouco. E assim, com a ansiedade de uma criança que recebe da mãe míseros 5 minutos para escolher seu chocolate, vivo com a impaciência e o medo de chegar em casa com o branco e desejar o meio-amargo.

Minhas contas.

E assim passo os dias, pensando, ponderando, listando. Planejando, fabricando e antecipando meus passos, pensamentos e atitudes. A fábrica dos não sentimentos. A engenharia da indiferença. Calculo meus atos na tentativa de medir as conseqüências, utilizo as fórmulas dadas pretendendo atingir um único resultado: zero. O número representativo da liberdade que venho almejando desesperadamente. 

Pena que nunca fui boa em física. 

Na lógica dessa questão me pego buscando variáveis que me obriguem a chegar a um resultado diferente. Mas, como uma professora de matemática intimidadora me reprimo, me julgo, me condeno, me lembro. Você me pediu indiferença. Organizou a equação de uma forma só sua, que me dizia com a delicadeza de quem se importa etapas de uma fórmula para acabar. Comigo, com o que eu sinto, com quem eu sou. E, como uma criança de recuperação, forçada a entender, entendi. 

Agora, finjo a indiferença. Escondo fatos, construo enigmas que antes desvendaria sem pedir-me. Fecho os parênteses que te davam acesso total a minha vida. Apago e refaço as tentativas de chegar ao resultado.  

E você, como uma borracha barata não me deixa esquecer os erros, me chama, reclama, clama o que ainda é seu. Na injustiça da situação você busca os gráficos a seu favor. E eu fico no conjunto vazio.  

O resultado? Nenhuma das anteriores.

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