Arquivo para janeiro \22\UTC 2008

Rascunhos

O cheiro era envelhecido. Os papéis, livros, cartões postais e fotos se espalhavam como se pudessem ocupar na mesa o equivalente espaço que ocupam na sua vida. Eu estava ali, perdida, absorvida na capacidade daquele cômodo de reter tanta memória. Uma caixa de charutos empoeirada, pilhas de fotos do Pantanal, quadros apoiados nas paredes, desenhos, rabiscos. Enquanto estou ali, parada, analisando os cds, aqueles que eram do seu pai, aqueles que você roubou do seu pai, aqueles que você nem sabe como chegaram ali, ouço você dizendo – Vou te desenhar – Me viro. Me viro e você está sentado na mesa, fez um espaço na bagunça e agora detém um bloco de papéis amarelos e uma caneta nas mãos. Você sorri. Eu me envergonho, olho para baixo. A regra é que não posso me mexer, então sento. Sento na cama que você colocou ali depois que seu pai se foi e te olho.

Pela primeira vez te vejo completamente seguro, como se a combinação da tinta no papel te desse certeza absoluta. A insegurança, o medo, a ansiedade, dão lugar à confiança, calma e concentração. Você me olha concentrado, captando cada detalhe de mim, cada marca, cada cicatriz. O contorno das minhas orelhas, o brinco que carrego em uma delas. Seus olhos encontram os meus, você sorri e volta ao desenho. Seu cabelo cai sobre sua testa, as veias do braço desenhante saltam com os movimentos e de tempo em tempo você afasta a cabeça para visualizar o resultado. E assim passamos os minutos seguintes, você me desenhando no papel e eu te descobrindo na imaginação. Pena que minhas habilidades manuais não vão além de pessoas feitas de palito.

Ao terminar me levanto e vou até você. Olho para o desenho. Como uma fotografia dos meus pensamentos estou lá, com uma cara de concentração, de abstração, de pensando em você. Abro um sorriso. Ouço você – Pena que não ficou tão bom – Ficou ótimo, penso eu. Você me mostrou que as falhas, as marcas, as cicatrizes são os que nos diferenciam. E, ali, como da primeira vez, entendi a beleza.

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O fim.

O zero, o ponto de partida, o momento estático. Aquele segundo antes do salto onde seus pés desgrudam do chão e por alguns instantes toda a gama de sentimentos passa por você. A ansiedade, o desespero, a agonia, a alegria, e finalmente, o alívio. O alívio mais por ter cruzado a linha de chegada do que pelo resultado da corrida. O fim.Como um atleta nas Olimpíadas espero o podium. O momento da condecoração, da premiação, do reconhecimento. São aquelas horas em que você olha para trás e repensa o caminho percorrido até aqui. Os treinos, as quedas, as feridas, os acertos, enfim, a vida. E este é o tempo que ela te dá para começar de novo.Como uma fiel seguidora do treinador, segui seus conselhos, acreditei nas suas promessas, me vi seguindo sua coreografia. Torci o pé, acreditei que não voltaria dançar de novo. E, como a madame que ostenta a academia como sua segunda casa me vejo cansando da sua dança, do seu ritmo.E então, como se um personal trainer me guiasse pelos exercícios, encontro uma nova batida, uma nova dança, um novo você. Você agora é doce, suave e como um exercício mal feito pode causar dores no corpo.O sentimento de renovação se esvai dando lugar ao medo, a insegurança, ao gostar. Podem passar luas, folhas de um calendário, tensões pré-menstruais de uma mulher ou uma série de exercícios abdominais, mas algumas coisas nunca mudam. É como deixar de reter líquidos no corpo. Não significa que esteja perdendo peso. E assim sigo, como em uma aula de spinning, fugindo de mais uma leva da dor, pedalando a lugar nenhum.