Arquivo para agosto \24\UTC 2008

o grito.

Mais importante que as palavras, mais importante do que você tenha a dizer e que eu possa escrever aqui, está o silêncio. Esta medição de tempo, espaço e ausência pode significar mais do que todos esses palavrões endereçados a mim. São os longos períodos onde eu penso em milhares de coisas pra dizer, milhares de idéias surgem e cantarolo algumas músicas na cabeça. Alguns instantes depois percebo que não disse nada, não me lembro das idéias e apenas a pior das canções fica incrustada em minha mente. Mas o silêncio pode se apresentar nas mais diferentes ocasiões. Pode significar um mútuo entendimento dispensador de palavras, pode significar um momento importante que qualquer palavra estragaria, ou uma profunda tristeza, decepção. Pode ainda significar uma exclusão significativa da porção de vida que te emprestavam, aquela que se comparte até que algo rompa em busca da indiferença.

Admito que faço uso do silêncio muitas vezes. Admito que não é das minhas ferramentas mais maduras, mais estruturadas. Ás vezes surge da raiva, junto com as lágrimas que borram a visão. Não sei o que dizer, então me calo. Posso me calar por muito tempo ou até para sempre, mas talvez seja porque não vejo saída. Ainda não aprendi como lidar de outra forma com as coisas que transpassam a cara de brava que tenho e machucam profundamente.

 

 

Apenas uma pausa no silêncio que me assola, me persegue e me derrota.

 

Anúncios

Inspiração.

Quando se está estudando é muito comum ouvir histórias, absorver conselhos, que como fórmulas matemáticas os adultos insistem que devem ser aplicadas. Destes habitantes da terra dos adultos, apesar de bem intencionados, muitos repetem jargões e clichês que nos cansamos um pouco de ouvir. Pode ser que quando cheguemos à reta final, nos deparemos com diferentes resultados, planos deixados de lado, um arrependimento aqui e outro ali. Talvez pensemos que se tivéssemos seguido as fórmulas, repensado as variáveis, o coeficiente seria diferente. Ou talvez não.

Mas, nesses últimos dias, tive a oportunidade de ver e ouvir um dos grandes. A princípio fui como estudante, afinal Guillermo Arriaga escreveu roteiros maravilhosos como “Amores Brutos”, “21 gramas”, “Babel”, entre outros; é ganhador do Globo de Ouro e indicado ao Oscar. Representa a onda do novo cinema mexicano ao redor do mundo. Saí de lá com um sorriso no rosto, um aperto no peito e seu livro debaixo dos braços. Além de uns quantos conselhos para a vida.

O tema do debate era a diferença entre escrever literatura e escrever roteiros. Arriaga falou da morte, da inspiração, do medo, da angústia e, principalmente, da vida. Começou a escrever com 23 anos, após uma infecção que quase o matou. Na cama, olhando para as mãos que poderiam em breve tornar-se cadáver, prometeu-se 3 coisas: que não deixaria mais de tocar a pele da mulher que ele mais queria tocar, bater em quem crê que deveria bater e escrever algo que sobreviva ao pedaço de matéria orgânica que ele é. Assim,  na questão das matérias em decomposição, acredita que cada um chega ao mundo com seu galão de tinta, e que este infelizmente não é recarregável. Assim, admitiu o medo do dia em que seu galão se seque e ele não tenha mais histórias que contar.

Meu pescoço se esticava para poder vê-lo melhor através do grande público presente, até que Arriaga se levantou para poder ver a todos melhor enquanto falava. Assim, eu vi. Ali estava, um homem grande, habitante enviado deste mundo cada vez mais próximo dos adultos, dizendo o que eu precisava ouvir.

Para ele, fazer arte é como despir-se em frente a um público e esperar pelos comentários sobre a sua figura. É a angústia de permitir que alguém veja seu filme, leia seu livro, aquilo ao qual você se dedicou, deu suas horas, dias e anos, e estar aberto às críticas provindas do mesmo.

Meus olhos se encheram de lágrimas. O medo é grande, principalmente quando se está começando.

O ápice foi quando Arriaga, rebatendo a opinião de um diretor brasileiro presente ao qual eu me recuso nomear, afirmou que não existe talento e muito menos sorte. O que existe é a vontade e o tesão de fazer e, como tigres a espreita da presa, a paciência e a sabedoria de saber pegar a oportunidade no momento exato.

Após o debate comprei seu novo livro e entrei na fila dos autógrafos. Depois de umas cinco frases trocadas e um fluxo incrível de sangue pro meu rosto que me fez incrivelmente vermelha, ele assinou meu mais novo livro. Saí da fila com o livro fechado em mãos, um sorriso e o rosto ainda vermelho. Passei pelo diretor brasileiro que esperava ansiosamente por um autógrafo na fila e no meio do caminho à saída abri o livro e lá estava:

Anna, espero que este libro te lleve a algún lugar de tu alma que no conozcas.

Un beso, Guillermo Arriaga

Anúncios