Arquivo para junho \17\UTC 2009

Açúcar Mascavo

mascavo

Às vezes, quando deixava a água que escorria do chuveiro bater em suas costas, se pegava tendo conversas mentais com ele. Fazia tempo que não o via, que não sabia notícias, mas mesmo assim ele instistia em aparecer.

Ela contava sobre o seu dia, discutia política, divergia de suas opiniões e até se magoava com seus posicionamentos. Às vezes as discussões se repetiam duas, três vezes em sua mente. Tinha dias que, percebendo a loucura de seus gestos, interrompia abruptamente a conversa e se envergonhava de sua imagem no espelho.

Que estúpida, pensava ela. Pára de ser dramática, ele respondia.

Até o dia que se encontraram. Ela havia esperado, planejado e ensaiado esse momento à exaustão. Sentaram para tomar um café e como um aluno em dia de prova, esqueceu-se de tudo que guardara em sua mente para despejá-lo nessa ocasião. Calada, admirou a personificação de sua consciência contar-lhe eventos distintos daqueles os quais ela tinha imaginado para ele. Trejeitos dos quais ela tinha esquecido e hábitos adquiridos que a desgostavam.

Fazia tanto tempo, pensava ela. E você, disse ele. Não vai contar nada?

Encarou-o. E ali, naquela mesa de café, ao lado do pote de açúcar mascavo que ela destestava e ele, agora aparentemente adorava, ela percebeu que não o conhecia.

Conhecia sua versão anterior, é claro. A que a acompanhava a cafés e os enchia de saquinhos de açúcar até que o gosto praticamente sumisse. Conhecia sua versão sedentária, frequentador de bares da Vila Madalena e conhecedor profundo dos deliciosos quitutes de bar que dividiam. E, ao sair, aquele que jurava que ela não engordaria. Conhecia o amante de samba, o terrível motorista, o mau-humorado pelas manhãs.

Essa nova versão atualizada pela geração saúde sentada a sua frente não era mais ele. Açúcar mascavo, academia todas as manhãs e vegetarianismo definitivamente não figuravam em suas discussões mentais. De alguma forma, ela tinha congelado em sua memória um ele passado que o próprio relutava em relembrar.

Que louca, pensou ela.

Então lhe contou algumas anédotas do tempo transcorrido até o reencontro e relembrou nostálgica algumas aventuras dos dois. Após alguns silêncios desconfortáveis, despediram-se, prometendo ao vento que não tardariam a se ver novamente.

Ao chegar em casa, jogou-se na cama, encarando o teto.

O que aconteceu com você? disse ela. O que? respondeu ele. Sempre estive aqui.

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Indecisão

E aí você vai?

Hum… não sei, você vai?

Eu perguntei primeiro.

Eu já disse que não sei.

Como assim não sabe?

Não é tão simples…

Claro que é. Vai ou não vai.

O que que você acha?

Do que?

Vou ou não vou?

Não sou eu que tenho que saber.

Mas você pode me ajudar.

Eu achei que já estava ajudando…

É, mas… e se eu for?

Hum… e se você for?

Não, melhor não…

Então não vai? Já veio até aqui…

Tá bom então, eu vou.

Não vale se arrepender depois…

Então não devo ir?

Não sei.

Como não sabe?

Não sou eu quem tem que saber.

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