Arquivo para fevereiro \17\UTC 2010

Conversa de Pescador

CoPouso da Cajaíbastumava acordar cedo. Esfregava os olhos, abria a janela e observava a paisagem ainda escurecida. Ao abrir a porta de casa, e deparar-se com ele, sorria. Seu ofício? Pescador. Seu patrão? O mar.

Enquanto seus companheiros preparavam seus barcos para mais um dia de trabalho, ele parava com os pés na areia, deixando a água tocar-lhe levemente e, em voz alta, perguntava – Tem peixe? Risadas ecoavam e os outros balançavam suas cabeças, enquanto comentavam seus momentos de loucura e os atribuiam a bebedeira da noite anterior – Ê Ressaca! – gritavam. Mas, não importava porque, de alguma forma, para ele, o mar respondia.

Via o mar como um ser vivo, um deus mitológico, uma entidade com vontade própria e livre arbítrio. Havia que perguntar se podia banharse, se as ondas baterem com força nas pedras, respeitar seu mau humor e quando a correnteza te puxa de volta à praia,  é sinal que o mar deseja recolher-se em sua privacidade.

Pedia licença para exercer sua profissão, pegando peixes como um empréstimo a um amigo com dificuldades financeiras, as ondas brincavam de pega-pega com seus filhos da beira da praia e a água refrescava sua mulher após horas na cozinha. Ao final do dia, secando-se ao sol, agradecia por sua companhia. Virara seu amigo, confidente, parceiro de todos os dias.

E quando chovia torrencialmente e sua mulher lhe implorava para que deixasse a pescaria para outro dia, ele lhe respondia – É o jeito do mar lavar a alma, há de se presenciar. E se alguém há de me levar, que seja o mar.

E quando assim foi, e o mar o levou, a chuva lavou sua alma pelos próximos sete dias. Os moradores da vila o observavam em silêncio e ninguém se atreveu a pescar. O mar estava de luto.

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fragmentos de um perfume

Aquele travesseiro tinha um cheiro peculiar. Era uma mistura do perfume que borrifava todo dia, do creme de barbear e do suor de um dia longo. A casa só se sentia casa após jogar-se na cama e inalar por alguns segundos aquele cheiro. Nenhuma cama recém feita ou lençol com amaciante podiam superar essa sensação. Mudar de sabão em pó era motivo de demissão, hotéis causavam-lhe insônia. Chegava em casa, jogava as chaves na mesinha de centro, tirava os tênis, um por vez, com o auxílio do outro pé, deixando-os jogados no corredor e com uma mão tirava a camiseta de uma vez pela cabeça, enquanto andava pela casa. Ao chegar no quarto, olhava para a cama e se jogava. Caía em uma imensidão acolchoada, se banhava no mar dos lençóis e se encontrava com ele. O cheiro. E aí, nenhum lugar comparava-se aquele.

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