Arquivo para junho \22\UTC 2010

O Passageiro

Andar de ônibus pode ser algo um tanto quanto elucidador. No meio de corredores, assentos reservados, idosos, gestantes, homens, mulheres e crianças ainda capazes de passar por debaixo da catraca, passamos muitas horas do nosso dia segurando nas hastes de ferro amarelas esperando não cair e aguardando ansiosamente por algum assento desocupado.

Nas raras ocasiões em que estes se encontram meio cheios ou meio vazios e avisto um assento vazio do outro lado da catraca uma pequena sensação calorosa toma conta de mim ao finalmente conseguir sentar-me e ajeitar-me em um lugar desocupado. Suspiro.

A felicidade nas pequenas coisas.

Alguns assentos são individuais, outros duplos. Prefiro sentar onde esteja vazio, quando possível. O curioso é que, ao sentar em um espaço duplo totalmente vazio, espero poder viajar todo o caminho sem que ninguém ocupe o assento ao meu lado. Na maior parte das vezes, isto não é possível e viajar acompanhado se torna inevitável. Algumas vezes o ocupante é rápido, descendo rapidamente do ônibus e te permitindo seguir viagem só ou acompanhado por um ser novo. Ele pode ser calado, puxar assunto, espaçoso, usar um perfume forte ou nenhuma das opções anteriores. Ou pode se encaixar no mesmo grupo que eu, o de eternos leitores. Como imãs, meus olhos grudam em qualquer jornal, revista, bíblia, folhetim ou livro de meus companheiros viajantes. Muitos deles não gostam dessa invasão, mas é difícil se conter. Descobrir que títulos esses passageiros lêem é um hobby pessoal.

E existem aquelas ocasiões as quais, mesmo contra sua vontade, uma pessoa se senta ao seu lado e após um eventual “com licença” – “claro” e algumas ajeitadas no corpo para melhorar a acomodação, ele avista um outro assento recém desocupado, totalmente livre e migra, te deixando só naquele espaço duplo que agora parece grande demais.

Não consigo parar de pensar na semelhança com vida em geral. Eu não queria que ele sentasse lá, mas porque mudar de lugar? Será que meu perfume é forte demais, minhas pernas espaçosas, meu livro desinteressante?

Provavelmente nenhuma das opções. Provavelmente são escolhas baseadas puramente no conforto espacial que assentos duplos vazios podem proporcionar, nada relacionado ao companheiro de viagem da vez. Mas não é assim que, muitas vezes, o mundo gira? Alguém senta ao seu lado e juntos decidem acompanhar-se por essa viagem, mas quando um dos passageiros resolve mudar de lugar, você é deixado com um espaço vazio o qual não sabe muito bem como preencher.

Pelo menos até perceber o alívio que é poder esticar as pernas.

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