Arquivo para julho \30\UTC 2010

Trânsito

Era magro e relativamente alto, não aparentava os 17 anos que carregava nas costas. Trabalhava com entregas, seu cunhado tinha uma carreta, cabine dupla na frente e caçamba revestida por toras vazadas de madeira na parte de trás. Transportavam de tudo, móveis principalmente. Viam casais se juntarem, insistindo apertar dois mundos em um apartamento só e se separarem levando de volta apenas o sofá, a geladeira e um eventual objeto jogado pela janela em um surto de raiva.

Já conhecia a cidade de cor, os horários de trânsito, os atalhos, os caminhos alternativos, melhor que qualquer taxista, gostava de gabar-se. Tinha os braços fortes de tanto carregar peso e um sorriso que denunciava sua pouca idade. No fim do dia, após a última entrega e enfrentando o pior dos trânsitos paulistas, costumava deixar seu cunhado sozinho na direção ao som das melhores da rádio e com um impulso prostava-se na caçamba. Ali, onde as coisas mais valiosas dos clientes costumavam viajar pela cidade, deitava, colocava um braço atrás da cabeça como apoio, o outro recostado em cima da barriga e olhava para cima.

O cunhado, certo de que ele dormia, não dizia nada, continuava a cantarolar suas canções favoritas. A verdade é que gostava de ver São Paulo assim, debaixo para cima. As nuvens passavam como borrões quando o trânsito permitia correr e quando congestionados podia vê-las movimentando-se pelo ar, lentamente formando e deformando. Os cabos de força faziam caminhos complexos, interligavam-se entre si e com os galhos das árvores mais altas, desenhando no céu. Sons de buzina e poluição não pareciam incomodar-lhe, faziam parte do show aberto, suspenso no ar, que é São Paulo.

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O outro lado da porta

Eu escolho a felicidade. Quase como um mantra, repetia a frase em voz alta ao olhar-se no espelho. Respirava fundo. Tentava novamente. Eu escolho a felicidade. Como nuvens carregadas, seus olhos enchiam-se de lágrimas. Mais uma vez. Eu escolho a felicidade. Em alguns momentos, dava certo e as gotas secavam antes da tempestade. Outros não, e como chuva em tarde de verão, caiam alagando a pia onde a torneira já respingara. Eu escolho a felicidade. Frase brega, pensava, e ria de si mesma, com vergonha de algo que, apesar dos passos do outro lado do banheiro, ninguém ouviu.

Tratava de ser otimista, desabrochar a Pollyana que havia dentro de si. Não há nada de ruim que não possa piorar, pensava ela, no auge de seu pensamento positivo. Portanto, não reclame. Eu escolho a felicidade. Inspira. Respira. Acalmava-se. Hora de virar a tranca e enfrentar o mundo lá fora. O outro lado da porta.

Com a mão na maçaneta, se vira e olha mais uma vez no espelho. Apagando vestígios. Maquiagem, ok. Eu escolho a felicidade. Respira e volta a mirar para a frente. Encosta a cabeça na porta e fecha os olhos escutando os ruídos abafados. Eu escolho a felicidade. 1,2,3.

De impulso, gira a chave e abre a porta. Os ruídos se tornam claros e os passos ganham rostos. Ninguém parece notar seu esforço para existir. De volta ao mundo.

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