Archive for the ‘ Cinema ’ Category

América Latina na Tela

Alicia en El País E assim acabou o 4o. Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Houveram problemas, é claro. Em um ano de crise sustentar um festival mantido pelo governo, que consiste em grande parte de obras internacionais e o qual não se cobra um centavo de entrada não é fácil. Ao meio do caos mundial conseguiram organizar, ainda que desorganizado, o quarto ano do evento. Por ser um festival ainda iniciante encontra inúmeras dificuldades, mas aos poucos vai mostraLa Teta Sustadando seu valor, e os cineastas começam a gostar de ver seus filmes projetados ali por primeira vez. Para mim, o mérito deste festival vai ainda mais longe. Situa-se em uma realidade cada vez mais presente da produção cinematográfica latino-americana. Mostra que, apesar das dificuldades, da crise, da falta de público, da falta de incentivo e de outras inúmeras faltas, estamos fazendo um cinema consistente que não deixDiosesa a desejar tecnicamente ou criativamente dos que vemos passando nos grandes cinemas por aí. Mostra que a América Latina é completamente diferente e ao mesmo tempo tão El Cuerno de La Abundanciaparecida. E que os filmes, sejam eles comédias, dramas, musicais, denunciam uma realidade e nos ajudam a lidar com ela. A diversidade é o que os une. Em “La Teta Sustada”, ganhador de Berlim,  os reflexos de anos de violência da época do terrorismo no Peru vem à tona, já em “Dioses”, também peruano, vemos a classe média alta, suas concepções de família e o desprezo pelas origens. “Rudo y Cursi” e “El Cuerno de la Abundancia” mostram que da desgraça também se faz comédia. E “Alicia en el País” mostra que também há espaço para filmes subjetivos e poéticos, mesmo em rRudo Y Cursiealidades tão tristes. O objetivo aqui não é criticar analiticamente os filmes, e sim mostrar a pluralidade das realizações. O que falta para começar a consumirmos mais filmes vizinhos diante de tanta abundância e diversidade? Porque perdemos tanto tempo ignorando nossa própria realidade e nos imergindo de uma alheia?

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Personal Che

O que normalmente escrevo aqui não discorre sobre programas, livros ou cinema, apesar da minha formação e paixão fervorosa, mas, hoje, me liberto de certas amarras para falar de um filme que vi recentemente chamado “Personal Che”. O documentário, dirigido por um brasileiro e uma colombiana, naquele esquema os dois escrevem, produzem, dirigem, editam e, se duvidar, fazem até a trilha sonora, investiga a criação e as vertentes do mito que se tornou Che Guevara após sua morte na Bolívia.

O filme entrevista então pessoas como um imigrante de El Salvador que mora nos Estados Unidos e é colecionador de todas as coisas Che (o maior arsenal de camisetas do Che que eu já vi), ou famílias muito humildes que moram na região próxima de onde o guerrilheiro morreu que acreditam que Che virou santo. Fazem orações, deixam velas acesas, carregam imagens. Entrevistam também dois dos maiores biógrafos de Guevara, que explicam um pouco mais de quem ele foi, o contexto de sua foto mais famosa, que deu ao mito essa personalidade dura e, por vezes, carrancuda.

Ainda assim, não deixam de retratar os dois lados, os cubanos exilados em Cuba que discorrem sobre fuzilamentos supostamente feitos por ele; jovens alemães, partidários nazistas que vêem grande semelhança entre Che e Hitler; um fotógrafo que acredita que a melhor coisa que Ernesto fez foi tirar aquela famosa foto, entre outros. Mas o mais surpreendente para mim foi um musical da história da vida de Ernesto Guevara, em cartaz no Líbano.

E assim o filme segue, algumas vezes destruindo ilusões de crentes no Santo Che, outras vezes trazendo um pouco a realidade à tona. Talvez o mais importante seja que nos mostra que cada um se agarra ao que pode, cada um encontra a fé em algo diferente. É lógico que beira o incoerente pensar que povoados inteiros santificaram alguém que por ideologias socialistas bania todo tipo de religião. Mas, pensando bem, talvez Che tenha sido a pessoa que mais lutou por eles, lutou pela terra e por seus direitos, então é lógico que, em meio a tanta desgraça, tenham fé nessa figura, e porque não?

Bom, para mim, foi um bom período de reflexão. Vendo que cada um tinha o seu, comecei a me perguntar qual era o meu Che. E percebi que não é porque simpatizo com a causa socialista, porque sei que seu modelo tem problemas, mas simpatizo com a pessoa que foi Ernesto Guevara. Um jovem de classe média, formado médico, e ainda com uma condição física (pra quem não sabe, ele tinha asma). Era tão fácil ter se conformado. Mas haviam injustiças que o incomodavam e ele não se contentava em ficar discutindo com o jornal. E mesmo após a Revolução Cubana, ele como Ministro da Indústria, realizava trabalhos voluntários aos domingos, e quando outra revolução o chamou, ele foi. Para mim, aí jaz toda a beleza. Não discuto a mão armada, as guerrilhas, o sangue derramado. Admiro a garra, a força, a coragem, o altruísmo, os valores, os ideais.

Reconheço nele toda a coragem que me falta e que falta a muitos de nós, para pegar nossas armas, quaisquer sejam elas, e lutar. Ao longo do filme, repetem muitas vezes que a figura de Che está muito relacionada com a rebeldia da juventude. Bom, eu não quero perder esse senso de rebeldia nunca, pois é ela que não me deixa conformar com a vida.