O Palco

Na saída do metrô Consolação, ali bem na esquina da Av. Paulista e Augusta, há uma estrutura de metal quadrada de aproximadamente meio metro de altura e sem utilidade aparente para os milhares passantes. Mas, em dias escolhidos criteriosamente sem critério, um homem a usa para propósitos distintos do previsto por-vai-saber-quem a colocou ali. De barba e cabelo grisalhos e sem corte que o fazem aparentar mais idade do que provavelmente tem, ele sobe com pouca dificuldade na estrutura e, de pé, tira do bolso um radinho e um fone redondo que posiciona recobrindo suas orelhas. Sua calça jeans é sempre acompanhada de uma camiseta verde que cobre uma barriga avantajada pelo tempo. Ali, meio metro acima dos transeuntes, em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo, ele dança. Simplesmente, dança. Assim, sem coreografias e sem vergonha. Sem restrições de ritmos musicais ou passos da moda. Pode até ser que daquele radinho nenhum som real ecoe através dos fones até seus ouvidos, mas isso não importa. Em seu pequeno palco improvisado e sem causar muitas reações do público passante, ele passa suas horas. Dançando.

Toda vez que desço na estação Consolação, subo as escadas rolantes e vejo seu corpo se mexendo ao som de buzinas, escapamentos e conversas jogadas ao vento, me lembro de como tudo pode ser assim, leve. Surpreendentemente leve.

E caminho sorrindo.

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Perdas e Ganhos

É difícil lidar com a perda. Além de reafirmar o óbvio, quero dizer que as perdas vem de diferentes maneiras. Existem aquelas irreparáveis, das quais a barreira intransponível entre a vida e a morte ainda não conseguimos burlar, e existem aquelas ocasionadas apenas pelo vai e vem natural dos corpos, universos paralelos, divórcios assinados, cartas de despedida ou simplesmente do silêncio. Essas perdas, além de se materializarem de diferentes maneiras, se apresentam nos mais variados tipos de relacionamentos.

Injusto, esse ir e vir constante, já que independente do grau e condições de temperatura e pressão, cada ser vem e agrega algo em você. Pode ser algo bom ou pode não ser, a questão é que as coisas mudam. E assim, às vezes sem mais nem menos, às vezes bem mais do que menos, nos perdemos e então elas se vão, impedindo-te para sempre de voltar a ser o que era antes.

Pode ser assim, dramático, ou pode passar desapercebido, mas não significa que não aconteça. Entre outras coisas, talvez sejam esses ganhos e essas perdas, esse trânsito humano, que nos faz chegarmos a velhice completamente diferentes do que fomos na juventude.

E, se tivesse que ressaltar um objetivo dessa linha de raciocínio, exposta aqui a julgamentos de valor quanto a breguice  e insensatez, seria dizer para você que, apesar de toda abundância de informação que agora flutua na internet, ainda está lendo esse texto, você que possivelmente já perdi por aí, ou talvez de alguma forma faça parte da minha vida, devo dizer que, independente da contabilidade de perdas e ganhos, você é parte constituinte do que sou hoje e do que serei amanhã.

E realmente espero que, mesmo nos perdendo, possamos nos reencontrar por aí.

fragmentos extraterrestres

Os devorava. Leitor ávido de tudo que lhe caía em mãos, não saía de casa sem o exemplar da vez debaixo do braço ou dentro da mochila. Companheiros fiéis, impediam a chegada do tédio em momentos rotineiros, como em filas de banco, consultórios médicos e trânsitos congestionados. Com o passar do tempo, uma mania se desenvolveu. Não conseguia largá-los. O clímax se aproximava, o casal finalmente se beijava, o assassino era revelado, o mistério resolvido. Como poderia largar tais páginas em momentos como esse? Passou a preferir ônibus à comodidade do carro, assim não perderia o tempo da viagem e chegava a descer alguns pontos depois se as páginas cruciais se aproximavam. Caminhava lendo, hábito que ocasionava alguns acidentes com paredes, postes, pessoas e afins; e até inventou um apoiador que o permitia ler durante as refeições de forma que não precisasse ocupar uma de suas mãos.

Era tachado de anti-social, um ermitão que preferia uma porção de páginas escritas à relações de carne e osso. Ele não escutava, estava muito envolvido com figuras mitológicas, investigações policiais, anéis poderosos e romances proibidos para notar qualquer comentário dessa estirpe.

E, ao chegar ao fim e virar a última página, inevitavelmente o vazio batia, como se já pudesse sentir saudades de seus amigos personagens. Fechava o livro e erguia a cabeça. De repente seus ouvidos captavam a ruidagem externa e seus olhos a movimentação dos corpos passantes. Era como se recém chegasse na terra, um extraterrestre vindo de lugares muito mais interessantes. De supetão, corria para a livraria de sempre, onde, passando os dedos pelas lombadas, procurava um novo mundo para pertencer.

Conversa de Pescador

CoPouso da Cajaíbastumava acordar cedo. Esfregava os olhos, abria a janela e observava a paisagem ainda escurecida. Ao abrir a porta de casa, e deparar-se com ele, sorria. Seu ofício? Pescador. Seu patrão? O mar.

Enquanto seus companheiros preparavam seus barcos para mais um dia de trabalho, ele parava com os pés na areia, deixando a água tocar-lhe levemente e, em voz alta, perguntava – Tem peixe? Risadas ecoavam e os outros balançavam suas cabeças, enquanto comentavam seus momentos de loucura e os atribuiam a bebedeira da noite anterior – Ê Ressaca! – gritavam. Mas, não importava porque, de alguma forma, para ele, o mar respondia.

Via o mar como um ser vivo, um deus mitológico, uma entidade com vontade própria e livre arbítrio. Havia que perguntar se podia banharse, se as ondas baterem com força nas pedras, respeitar seu mau humor e quando a correnteza te puxa de volta à praia,  é sinal que o mar deseja recolher-se em sua privacidade.

Pedia licença para exercer sua profissão, pegando peixes como um empréstimo a um amigo com dificuldades financeiras, as ondas brincavam de pega-pega com seus filhos da beira da praia e a água refrescava sua mulher após horas na cozinha. Ao final do dia, secando-se ao sol, agradecia por sua companhia. Virara seu amigo, confidente, parceiro de todos os dias.

E quando chovia torrencialmente e sua mulher lhe implorava para que deixasse a pescaria para outro dia, ele lhe respondia – É o jeito do mar lavar a alma, há de se presenciar. E se alguém há de me levar, que seja o mar.

E quando assim foi, e o mar o levou, a chuva lavou sua alma pelos próximos sete dias. Os moradores da vila o observavam em silêncio e ninguém se atreveu a pescar. O mar estava de luto.

fragmentos de um perfume

Aquele travesseiro tinha um cheiro peculiar. Era uma mistura do perfume que borrifava todo dia, do creme de barbear e do suor de um dia longo. A casa só se sentia casa após jogar-se na cama e inalar por alguns segundos aquele cheiro. Nenhuma cama recém feita ou lençol com amaciante podiam superar essa sensação. Mudar de sabão em pó era motivo de demissão, hotéis causavam-lhe insônia. Chegava em casa, jogava as chaves na mesinha de centro, tirava os tênis, um por vez, com o auxílio do outro pé, deixando-os jogados no corredor e com uma mão tirava a camiseta de uma vez pela cabeça, enquanto andava pela casa. Ao chegar no quarto, olhava para a cama e se jogava. Caía em uma imensidão acolchoada, se banhava no mar dos lençóis e se encontrava com ele. O cheiro. E aí, nenhum lugar comparava-se aquele.

Feliz Ano Velho

O ano está acabando. O pobre coitado é denunciado não somente pelas folhas de calendário ou páginas finais de agenda, mas também pelo calor escaldante, pelas chuvas que nada refrescam, pela 25 de março abarrotada, pelas luzinhas made in china na fachada. Por mais que tente se esconder, este ano vem perdendo sua vez, ficando velho e grisalho, levando com ele seus acontecimentos triviais, outros nem tanto e tomando aos poucos seu lugar no passado. Como muitas coisas em nossa sociedade contemporânea, rejeitamos o velho, para dar lugar ao novo.

Não sou muito do tipo de pessoa que faz resoluções de ano novo, mas é bom ter a sensação que, de alguma forma, podemos começar de novo. Daí a gente pula sete ondas, faz oferendas, come coisas que não comeria o resto do ano e jura que ano que vem tudo vai ser diferente. E vai ser. Ou não. Nunca se sabe.

Esse ano, esse que se vai junto com a validade dos panetones nas prateleiras, se vai com muita coisa de mim. Não foi um ano qualquer. Como qualquer fim de ciclo e começo de outro, foi recheado de incertezas e ansiedades que, como qualquer ano que se preze, vai deixar vestígios no que vem em seguida. Dentro de sua lógica distorcida de eventos, foi um bom ano. E deixará saudades.
Não digo isso apenas porque a partir do ano que vem terei que pagar a tarifa inteira do bilhete único, a taxa da minha conta bancária vai subir, não posso mais ser estagiária e a meia entrada para shows e cinema terá que ser lograda através de métodos não muito confiáveis. Não, não mesmo. Isso só significa que o ano que vem, esse que não vê a hora de chegar, me obrigará a ser adulta, como se em um minuto isso fosse possível. Não me entenda mal, querido ano que se aproxima, não temo o mundo adulto, apesar de torcer para que haja uma taxa bancária de primeiro emprego.

Talvez toda essa ansiedade se ancore no fato de que a vida toda, apesar da consciência de minha ainda pouca vivência, fazemos planos. Viagens, morar fora, aprender latim, o que seja. Eu planejei e, de uma certa forma, ao longo dos anos que hoje moram no passado, coloquei minhas expectativas nos anos que seguissem esse. Esse, que você nem viu passar. O problema não é pagar as taxas bancárias, passes de metrô ou entradas de cinema, os anos passam e a maior parte de nós consegue. O problema é não ter a coragem ou condições de fazer tudo aquilo que planejei. E depois, quando os anos passarem, enquanto me surpreendo com a quantidade de panetones empilhados em setembro anunciando uma nova virada, tentar justificar o porque não fiz nada. Assim, o ano que se aproxima, esse que receberemos com fogos de artifício, nada mais é do que um tapa na cara alertando-me que chegou a hora.

Enquanto a decoração das lojas, os papais noeis de shopping, a neve falsa saindo dos bancos na Paulista e as chamadas para especiais natalinos e show do Roberto Carlos, insistem em recordar a iminente chegada desse novo ano, eu me apego com afinco as reminiscências deste ano que passou voando, deixando para aquele último minuto a epifania do que fazer a seguir.

Manifesto Feminino

Todo mês é a mesma coisa. Sorrateiramente ela chega e aos poucos se impõe com firmeza. Todo mês eu tento evitá-la e todo mês, apesar de meus esforços, ela ataca. Inimiga número 1 dos homens, é também desculpa esfarrapada de quando estes não querem reconhecer seus próprios defeitos. Ah – eles dizem – entendi, tá na TPM, né? Se sim, estamos na TPM, um sentimento intenso se multiplica e a vontade é de danar profundamente a saúde de nosso interlocutor. Se não estamos na TPM, então esse sentimento se mistura a dor da injustiça. Não há maneira de fazer esta declaração e sair ileso. É verdade, são dias intensos. O inchaço preeenche nosso corpo, dificultando a escolha de roupas e consequentemente declarando guerra contra o armário. As dores, para algumas mulheres, constante, para outras, um incômodo, fica a espreita. E o mau-humor definitivamente não é algo facilmente evitável. Alguns remédios prometem ajudar, vendem a cura para os sintomas femininos. Para mim, a pílula ajudou com as dores – muito obrigada – mas  normalmente  é o emocional que toma conta e para isso não há o que fazer. O que antes poderia ouvir sem nem pensar em me ofender, vira motivo para ir chorar no banheiro, me abato por uma vontade tremenda de ver filmes hollywoodianos genericamente rotulados de comédias românticas e choro ao cair nas mesmas fórmulas que eu sei serem fabricadas, amaldiçoando o mundo por não criar pessoas assim como os roteiristas criam personagens e nem situações capazes de transformar minha vida em 90 minutos. E sempre acompanhada de chocolates, é claro. E como diz, Ricardo Arjona em uma música sobre o tema, “De vez en mes soy invisible para intentar en lo posible no promover tu mal humor”, sou capaz de grosserias infundadas levadas a uma proporção extrema. Alguns dias se passam, fazendo-me voltar ao estado anterior e eu finalmente consigo enxergar o porque de toda essa sensibilidade aflorada. Ah – digo eu – tava na TPM. É quando eu percebo o quão exagerada fui nas reações, agradeço aos céus por ninguém ter me visto chorar enquanto assistia aqueles filmes, me arrependo das calorias ingeridas e sinto raiva de mim mesma por ter caído no mesmo clichê feminino novamente. Mês que vem vai ser diferente, me proponho. Logo me pergunto quando isso tudo vai acabar e rapidamente me lembro da menopausa e já não sei o que é pior. É, ser mulher é complexo. Isso não quer dizer, homens habitantes do planeta Terra, que vocês não possam estar errados em uma discussão. Estejamos de TPM ou não.