O Homem que Parava o Tempo

Cinesesc

Outro dia, no cinema, enquanto aguardava o início da sessão, sentei em um dos puffs do saguão de entrada do local. A sessão era disputada e algumas pessoas já formavam, em vão, uma pequena fila em frente a entrada da sala. Na televisão a minha frente rolavam créditos de um programa sobre ballet que nenhum dos presentes parecia notar. Quando o tédio estava pronto para tomar conta, olhei para o lado e o avistei. Sentado em um puff ao meu lado esquerdo, levemente de costas para mim, um senhor desenhava. Parecia ter quase atingido a casa dos setenta, seus cabelos eram totalmente brancos e desgrenhados, assim como sua barba não parecia encontrar um aparador há tempos.

O homem carregava uma caderneta e uma caneta preta, seus traços eram leves e suas mãos rápidas. Em poucos segundos figurava na folha de papel o retrato de uma jovem mulher sentada. Ergo meus olhos do papel para os dele. Discretamente ele traça no papel e olha rapidamente para frente. Acompanho seu olhar e a encontro. A moça do desenho, sentada em sua frente, conversava com amigos, aguardando o mesmo espetáculo que nós. Um segundo e pronto, ela se mexeu e já não era mais a do desenho. Sem saber de seu protagonismo na obra de arte, continuava a conversar. Mas ele não parecia se importar, já havia imortalizado no papel aqueles poucos segundos de tempo. Deu uns retoques aqui e ali e estava pronto.

Eu, maravilhada, já nem me preocupava do ridícula que estava, retorcida, para ver o desenho. E o senhor, como se soubesse da minha curiosidade mesmo sem olhar para trás, começou a folhear as páginas de sua caderneta. E ali estavam, imortalizados no papel, milhares de segundos parados no tempo, registrados para sempre. Eram rostos, gestos, alguns coloridos, outros preto e branco, momentos que ele havia roubado só para ele.

De repente, a fila foi ficando cada vez maior e todos se levantavam para conseguir um lugar. Fui abruptamente tirada de meu estupor. Entrei na fila pensando em todos aqueles modelos inconscientes que pousavam apenas ao viver, ao simplesmente estar. A fila andou, o procurei, mas ele já não estava mais lá. Tinha-se ido.

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América Latina na Tela

Alicia en El País E assim acabou o 4o. Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo. Houveram problemas, é claro. Em um ano de crise sustentar um festival mantido pelo governo, que consiste em grande parte de obras internacionais e o qual não se cobra um centavo de entrada não é fácil. Ao meio do caos mundial conseguiram organizar, ainda que desorganizado, o quarto ano do evento. Por ser um festival ainda iniciante encontra inúmeras dificuldades, mas aos poucos vai mostraLa Teta Sustadando seu valor, e os cineastas começam a gostar de ver seus filmes projetados ali por primeira vez. Para mim, o mérito deste festival vai ainda mais longe. Situa-se em uma realidade cada vez mais presente da produção cinematográfica latino-americana. Mostra que, apesar das dificuldades, da crise, da falta de público, da falta de incentivo e de outras inúmeras faltas, estamos fazendo um cinema consistente que não deixDiosesa a desejar tecnicamente ou criativamente dos que vemos passando nos grandes cinemas por aí. Mostra que a América Latina é completamente diferente e ao mesmo tempo tão El Cuerno de La Abundanciaparecida. E que os filmes, sejam eles comédias, dramas, musicais, denunciam uma realidade e nos ajudam a lidar com ela. A diversidade é o que os une. Em “La Teta Sustada”, ganhador de Berlim,  os reflexos de anos de violência da época do terrorismo no Peru vem à tona, já em “Dioses”, também peruano, vemos a classe média alta, suas concepções de família e o desprezo pelas origens. “Rudo y Cursi” e “El Cuerno de la Abundancia” mostram que da desgraça também se faz comédia. E “Alicia en el País” mostra que também há espaço para filmes subjetivos e poéticos, mesmo em rRudo Y Cursiealidades tão tristes. O objetivo aqui não é criticar analiticamente os filmes, e sim mostrar a pluralidade das realizações. O que falta para começar a consumirmos mais filmes vizinhos diante de tanta abundância e diversidade? Porque perdemos tanto tempo ignorando nossa própria realidade e nos imergindo de uma alheia?

. hiato .

.
Se eu te contasse tudo que sei
Te desse tudo que tenho
Revelasse todos meus medos e anseios
Você fugiria?
E se te eu jurasse amor eterno
Mantivesse o mistério
Você ficaria?
E se eu cozinhasse
lavasse, passasse
Não reclamasse
Você amaria?
E se eu prometesse
dormir no lado esquerdo da cama
não puxar o cobertor
e chorar bem baixinho de dor
Você voltaria?
.

Açúcar Mascavo

mascavo

Às vezes, quando deixava a água que escorria do chuveiro bater em suas costas, se pegava tendo conversas mentais com ele. Fazia tempo que não o via, que não sabia notícias, mas mesmo assim ele instistia em aparecer.

Ela contava sobre o seu dia, discutia política, divergia de suas opiniões e até se magoava com seus posicionamentos. Às vezes as discussões se repetiam duas, três vezes em sua mente. Tinha dias que, percebendo a loucura de seus gestos, interrompia abruptamente a conversa e se envergonhava de sua imagem no espelho.

Que estúpida, pensava ela. Pára de ser dramática, ele respondia.

Até o dia que se encontraram. Ela havia esperado, planejado e ensaiado esse momento à exaustão. Sentaram para tomar um café e como um aluno em dia de prova, esqueceu-se de tudo que guardara em sua mente para despejá-lo nessa ocasião. Calada, admirou a personificação de sua consciência contar-lhe eventos distintos daqueles os quais ela tinha imaginado para ele. Trejeitos dos quais ela tinha esquecido e hábitos adquiridos que a desgostavam.

Fazia tanto tempo, pensava ela. E você, disse ele. Não vai contar nada?

Encarou-o. E ali, naquela mesa de café, ao lado do pote de açúcar mascavo que ela destestava e ele, agora aparentemente adorava, ela percebeu que não o conhecia.

Conhecia sua versão anterior, é claro. A que a acompanhava a cafés e os enchia de saquinhos de açúcar até que o gosto praticamente sumisse. Conhecia sua versão sedentária, frequentador de bares da Vila Madalena e conhecedor profundo dos deliciosos quitutes de bar que dividiam. E, ao sair, aquele que jurava que ela não engordaria. Conhecia o amante de samba, o terrível motorista, o mau-humorado pelas manhãs.

Essa nova versão atualizada pela geração saúde sentada a sua frente não era mais ele. Açúcar mascavo, academia todas as manhãs e vegetarianismo definitivamente não figuravam em suas discussões mentais. De alguma forma, ela tinha congelado em sua memória um ele passado que o próprio relutava em relembrar.

Que louca, pensou ela.

Então lhe contou algumas anédotas do tempo transcorrido até o reencontro e relembrou nostálgica algumas aventuras dos dois. Após alguns silêncios desconfortáveis, despediram-se, prometendo ao vento que não tardariam a se ver novamente.

Ao chegar em casa, jogou-se na cama, encarando o teto.

O que aconteceu com você? disse ela. O que? respondeu ele. Sempre estive aqui.

Indecisão

E aí você vai?

Hum… não sei, você vai?

Eu perguntei primeiro.

Eu já disse que não sei.

Como assim não sabe?

Não é tão simples…

Claro que é. Vai ou não vai.

O que que você acha?

Do que?

Vou ou não vou?

Não sou eu que tenho que saber.

Mas você pode me ajudar.

Eu achei que já estava ajudando…

É, mas… e se eu for?

Hum… e se você for?

Não, melhor não…

Então não vai? Já veio até aqui…

Tá bom então, eu vou.

Não vale se arrepender depois…

Então não devo ir?

Não sei.

Como não sabe?

Não sou eu quem tem que saber.

Declaração de Amor

As pessoas tem seus escapes. De alguma forma ou de outra todos encontramos algo que nos faça sentir melhor, mais reconfortado quando as nuvens estão negras e o coração pesado. Algumas comem chocolate, outras enchem a cara, alguns usam de alguma substância química, alguns usam até outra pessoa. Tem gente que prefere ficar sozinho, tem gente que sozinho é o pior que pode ficar.

Para mim, quando a garganta fecha, quando o mau humor aparece e tudo o que quero é desaparecer, eu vou até lá. É certo que há que pagar uma taxa de entrada, mas o seu aconchego vale cada centavo.

Eu chego e me deparo com seus funcionários, eles me conhecem de rosto e eu os conheço como parte desse momento delicioso. Compro minha entrada. A sala, iluminada por luzes baixas para que as pessoas possam escolher seus assentos, me recebe com um abraço. Escolho minha poltrona, coloco minha bolsa no braço, me ajeito e sorrio. Vejo outras pessoas entrando, escolhendo seus assentos, se preparando para a mesma viagem que eu. As luzes começam a baixar, a tela em minha frente se ilumina, minha pele arrepia e juro que meus olhos se enchem de lágrimas. Toda vez. Ali, naquela poltrona, no escuro, pelas próximas duas horas estou longe. Dependendo do que acontecer posso chorar, posso rir, posso revoltar-me, posso até dormir. Não importa. É meu ritual sagrado, é meu caso de amor. Meu próprio Cinema Paradiso.

Após inúmeras idas já consigo determinar a posição do ar condicionado, a distância perfeita das cadeiras para a tela, a lotação por sala. Posso ir em outras ocasiões, com outras pessoas, mas nada se compara a esse momento. É claro que o conteúdo importa, mas o ritual é o que o torna aconchegante.

Quando os créditos sobem, as luzes se acendem e as pessoas começam a sair, respiro fundo apreciando cada segundo. Ao sair já não sou mais a mesma que quando entrei, estou mais leve. E volto para casa com a certeza de que se o tempo mudar novamente, sempre haverá uma nova sessão.

Esse é o meu escape. Qual é o seu?

carta a você

Hoje acordei com dor de garganta. Resultado de tudo aquilo que queria ter dito ontem e não disse. E por isso, culpo você. É comportamento comum meu escolher algo e ficar indagando como seria se tivesse escolhido o contrário. Maldito signo de Libra. E assim como os adeptos de todas questões astrológicas culpando o destino, eu culpo você. Culpo você porque eu tentei de todas as formas ser amiga. E dentro da minha concepção desta função pouco ocupada fiz de tudo para que pudessemos dividir tudo o que os planetas colocassem em nosso caminho. Mas você não é adepto de previsões astrológicas, cartas de tarô ou mapas astrais. Tampouco é adepto de amizades. E para isso não há nada que eu possa fazer. Na verdade, não consigo nem me lembrar mais porque ainda me importo com você. Creio que me acostumei, me acomodei. Há tempos que você não se importa, apenas cutuca para sua auto-satisfação, sem se dar conta dos efeitos desse comportamento em mim. Ou talvez você perceba, o que só te faz pior. Resolvi dar um basta a esse inferno astral, assim como você acabou com toda e qualquer forma de relação saudável. E sim, eu culpo você. Chegou a hora de tomar uma decisão e ficar bem com ela. Chega de leitura das linhas das mãos, regressão à vidas passadas, borras de café com mensagens do além ou qualquer coisa relacionada a você. Como aqueles cometas ou eclipses que acontecem apenas uma vez em milhares de anos, nós tivemos a nossa chance e você estragou. Isso mesmo, você. Portanto, disponha naquele lugar qualquer tipo de recorrente contato eletrônico disfarçadamente amigável expressando falsas saudades. Porque é aonde você sempre dispôs as minhas.

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